Carmela Ruiz (1ª à esquerda, sentada) com Esperanza Ayerbe e catequistas de Cristo Rey

A Madre Carmela Ruiz Alguacil de Santo Agostinho (1909-1993) era a mais nova das três monjas contemplativas agostinianas recoletas que foram voluntárias para a missão de Shangqiu na China em 1931. Foi a formadora das Catequistas de Cristo Rei, irmãs oriundas da China, e cofundadora das Missionárias Agostinianas Recoletas.

Madre Carmela nasceu no dia 31 de julho de 1909, em Monachil, Granada, Espanha. Filha de Nicolás Ruiz e de Encarnación Alguacil, ela ocupava o quinto lugar entre os sete filhos do casal. Foi batizada oito dias após seu nascimento.

Aos 16 anos de idade, sendo algo comum na época, ingressou no mosteiro do Corpus Christi das Agostinianas Recoletas contemplativas da cidade capital da província onde ela tinha nascido, Granada. No dia 02 de fevereiro de 1925 iniciou o noviciado e dois anos depois, no dia 11 de fevereiro de 1927, fez sua profissão simples. Os votos definitivos, a entrega a Deus para sempre, foi no dia 2 de agosto de 1930.

Nesse momento que professou, na cabeça dela esse mosteiro do Corpus Christi iria ser sua morada para toda a vida. Mas encontramo-nos diante de um verdadeiro paradoxo, porque nesse mesmo dia, segundo ela mesma escreveu anos depois, “me ofereci ao Senhor para ir às Missões, se esta era a Sua vontade, ainda que tivesse que renunciar à felicidade que experimentava em minha comunidade”.

E foi nesse mesmo ano que o bispo dom Francisco Xavier Ochoa, agostiniano recoleto e quem dirigia a missão dos Agostinianos Recoletos em Shangqiu (China), fundada seis anos antes, tocou às portas do mosteiro através de uma carta dirigida à Madre Angelis Carvia, priora do Corpus Christi.

A carta, que foi lida em comunidade, especificava que o bispo estava procurando irmãs para sua Missão. Carmela explica o que aconteceu nela:

“Logo acendeu o entusiasmo que já tinha a comunidade, oferecendo-nos treze, dispostas a ir, ainda que a comunidade só podia desprender-se de duas”.

Dom Ochoa explicava às condições para as voluntárias, entre elas não ter menos de 25 anos, nem mais de 30. Nesse momento Carmela tinha 21 anos, de jeito que ficava excluída. Porém, as coisas aconteceram de novo de jeito inesperado. Carmela mesma o conta:

“O 30 de janeiro de 1931, dia que nunca esquecerei, após participar da Missa e comungar, ao aproximar-me para beijar a mão da priora, como era nossa costume, ela apertou fortemente a minha mão e me falou: ‘Minha filha, Deus te escolheu para ir às missões; é um sacrifício muito grande, porém seja corajosa e generosa com nosso Senhor’. Eu aceitei, mas naquele momento parecia-me que se nublava a minha vista e todo o coro se me vinha abaixo. Eu tinha desejado muito ser missionária… Só Deus sabe quanto me custou aquele sim.”

No 2 de março de 1931 as três monjas escolhidas (Esperança Ayerbe, Ángeles Garcia e Carmela Ruiz) saíram rumo à China. Começaram a missão com licença de exclaustração da Congregação de Religiosos de Roma. Após três anos, foram acolhidas à Congregação das Agostinianas Recoletas Filipinas, com sede em Manila.

Chegaram em Manila (Filipinas) o 5 de abril. Quase um mês depois, o 4 de maio de 1931, pegaram o vapor Fulda para ir de Manila ate Shangai, aonde chegaram o 10 de maio.

Oito dias depois pegaram um trem ate Shangqiu (por então cidade com o nome de Kweiteh) e fizeram em um caminhão os últimos sete quilômetros desde a estação de trem ate a sede central da Missão dos Agostinianos Recoletos, “天主教米桑”, “Tiānzhǔjiào mǐ sāng” o “Missão Católica”. Era o 19 de maio de 1931.

Os Agostinianos Recoletos as aguardavam com muito entusiasmo e as receberam com o canto do hino de louvor e agradecimento “Te Deum” na capela, com o povo de Deus presente, que as saudava e o frei Mariano Alegria traduzia as palavras dos cristãos para elas entenderem. As três respondiam com um sorriso, “com o qual dizíamos tudo”, sinalou madre Carmela.

O aprendizado do chinês demorou mais de um ano com frei Mariano Alegria como professor de aulas diárias. Quando não entendiam, faziam sinais para dar-se a entender.

Escolheram por unanimidade à Madre Esperanza como superiora, e ela fez a distribuição de tarefas. Madre Carmela ficou com a formação das futuras religiosas catequistas chinesas. Também ajudava ao frei Pedro Colomo no dispensário médico, aplicando injeções e medicamentos, assim como visitando doentes nas casas. Aqueles de mais idade e que o pediam eram batizados antes de morrer depois de uma catequese intensiva. Dizam: “Madre, eu quero crer o que você crê para ir ficar com esse Deus tão bom do qual nos falam”.

Madre Carmela descreveu assim sua descoberta daquela sociedade:

“O que mais nos custou foi ver tanta miséria, tanta fome, tanta superstição. Para os chineses a mulher não tem nenhum valor. Quando o inverno e o verão são muito fortes, eles têm que sair à procura de comida, tem que migrar a outra região para subsistir com esmolas; então desprendem-se das meninas deixando-as perto da Missão Católica ou lugares piores”.

Com essas meninas trabalhavam as três missionárias na Santa Infância, onde ficavam até os 14 ou 15 anos de idade recebendo comida, atenção, educação e vida em segurança.

Também conseguiram a licença do diretor da prisão para visitar aos presos, e especialmente aos condenados à morte numa etapa cheia de violências e guerras na região. De novo Carmela explica:

“Que pena dava aqueles pobres homens e ver que podíamos fazer tão pouco por eles! Algum dia encontrávamos a cabeça de algum pendurada em um pau, tinha sido posta ali para escarmento, segundo explicavam os soldados! Quanta miséria moral e material”.

A situação do povo não era boa nem saudável, e o mesmo clima não ajudava muito:

“A higiene não existe: além de não ter água, só a de poço, o frio no inverno é insuportável, por isso eles não podem tirar o abrigo em nenhum momento. Também o calor era terrível, os dois extremos insuportáveis. Para nós se nos fazia difícil suportar, mas com o tempo fomos tomando muito carinho àquela gente que sabia viver com tanta paciência e estoicismo o que eu mesma não conseguia suportar”.

Também descreve o amor dos cristãos por as festas religiosas mais importantes do ano:

“Chegavam na véspera desde muito longe; lhes preparávamos esteiras para tirar um pouco o frio e ali passavam a noite sentados no chão junto uns com os outros para sentir menos frio; para o jantar e o café da manhã fazíamos um mingau de farinha de milho ou trigo, para eles um banquete”.

No 18 de maio de 1938 a guerra entre os chineses e os japoneses chega na missão. Esse dia pela primeira vez aviões japoneses sobrevoam a cidade, presságio de futuros bombardeios. Por isso se decide a construção de um refúgio capaz de acolher aos missionários, missionárias e meninas de Santa Infância.

Porém, so dois dias depois caem de fato as primeiras bombas e há feridos. Um médico ocidental chamado Gilber diz que so atenderá aos europeus, pelo qual o bispo Ochoa não aceita sua ajuda, para não deixar de lado às religiosas chinesas e às meninas da Santa Infância.

Durante algum tempo a missão protestante deu refúgio a todos, porém as religiosas chinesas e as meninas deviam se esconder no porão quando os japoneses faziam registros. Madre Carmela com suas companheiras logram a proteção de uma delegação italiana. “Foram dias de grande sobressalto e sofrimento, só quem passa sabe o que é”, escreve Carmela.

A guerra afetou a todas as cidades da missão afundando-as na penúria e ruína. As esmolas dos cristãos e até mesmo dos pagãos permitiu sobreviver a todos, pois desde 1936 também não havia comunicação com Espanha a causa da guerra civil naquele país e não chegavam recursos do exterior.

Em 3 de janeiro de 1940, junto com Madre Esperanza, Carmela sai da missão. Não sabia que não poderia voltar. Passam um mês no Colégio Santa Rita de Manila das Agostinianas Recoletas de Filipinas e embarcam para Espanha no vapor Biacamamo no 29 de fevereiro de 1940.

A intenção da viagem era Carmela poder se despedir de seu pai gravemente doente e também abrir um noviciado para procurar vocações para a missão, o que seria o começo da Congregação das Missionárias Agostinianas Recoletas:

“Só nos fazia sofrer lembrar a nossa Irmã Angeles e nossas Irmãs chinesas que havíamos deixado e que amávamos com toda a alma. Eu não podia falar delas sem que nos olhos as lágrimas fizessem ato de presença. Só Deus sabe quanto me custou aquela separação. Creio que uma mãe verdadeira não teria sofrido mais”.

Carmela se destacou por ser uma incansável procuradora de recursos para a nova Congregação e para a missão na China. Em 2 de outubro de 1941 se abre finalmente o noviciado de Monteagudo (Navarra, Espanha) com duas postulantes. Carmela, que já tinha formado às Catequistas de Cristo Rei em Shangqiu, será a primeira formadora das Missionárias Agostinianas Recoletas na casa mãe de Montegudo.

Aos 18 de janeiro de 1947 é erigida oficialmente a nova Congregação das Missionárias Agostinianas Recoletas e Carmela nesse mesmo decreto é nomeada conselheira geral.

Carmela não desfrutou em vida de uma boa saúde, e o passo dos anos foi piorando essa situação. Faleceu aos 22 de agosto de 1993, com 83 anos de idade.